Vou contar uma estória

24.5.06

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5.3.06

.:Cap 11(continuação): Mergulho (Luíse):.

As próteses que ganhei não era exatamente o que eu sonhava como milagre, mas certamente representavam todos os passos que dali em diante eu poderia dar. Acho que meu primo num dado momento lutava mais por mim que eu mesma. Quando pensei em me enterrar num buraco, ele estava ali oferecendo a mão para eu segurar e não cair de vez. Mas dessa vez o Marcos começava a passar do limite. Queria que fôssemos na festa da Roberta hoje.
_ E o que tem demais você ir? Pode colocar uma calça comprida e ficar sentada, se quiser. É uma ótima oportunidade de estrear sua nova vida.
_ Marcos, as pessoas vão me olhar e...
_ Lu, as pessoas sempre vão reparar nas suas mudanças. Até porque a maioria está torcendo por você. Agora se ficar aqui e envelhecer, elas realmente não vão te reconhecer mais.
Respirei fundo e continei a olhar fixamente para a plantinha da mesinha de centro da sala.
_Tudo bem, eu vou, eu vou!_ fiz uma voz de desistência.
_Sério?_ Marcos olhou-me incrédulo, nem ele mesmo estava acreditando que me conveceria. Parece que já havia colocado no "piloto automático".
_ Então, vamos nessa!_bateu palminhas empolgado e foi vestir a camisa.
_Você vai assim?_ olhei para seu chinelo.
_Ora, claro._ olhou-se para verificar se havia algo errado._ Vai ser um churrasco em volta da piscina, não vou como se tivesse em uma entrevista de emprego, né?_ explicou-se e não esperou muito para emendar, como que lendo meu pensamento._ Mas não se preocupe, as pessoas vão entender se você...
_ Eu não queria que as pessoas entendessem nada..._ levantei meio brava. Não com ele, mas com a situação toda. Ele estava certo, precisava voltar a ter minha vida social.Vesti uma calça jeans mais folgada, um tênis e uma blusa bem decotada rosa, para tentar compensar o excesso de pano nas pernas nesse calor.
No carro, enquanto tocava música e Marcos dirigia, me senti novamente normal. Um gosto que não tinha à meses. Meu primo percebeu isso através do meu sorriso e tocou na minha mão:
_ Vamos nos divertir muito.
"Vamos"... Ele usava a frase no plural, aliás, sua vida agora era praticamente uma extensão da minha. Será que eu estava atrapalhando, como uma filha cheia de problemas?
_ Tem certeza que gostaria de fazer tudo isso comigo ou...?_ perguntei.
_Psiuuuu... Pára a bobeira, hen?!_ Fez carinho na minha nuca, nem deixando eu terminar. _ A Roberta também é minha amiga e está tudo certo, convera encerrada._ pisou fundo e eu resolvi não mexer mais nesse assunto.Assim que cheguei na casa onde estava tendo o churrasco, tomei noção de que havia pouco espaço para prestar atenção na minha perna diante da quantidade de público.
_Nossa, isso aqui está cheio..._ comentei para o Marcos depois que ele comprimentou a aniversariante.
_ Tem mais gente da faculdade dela._ observei e nos sentamos em uma mesa próxima à piscina, onde alguns já se deliciavam com a água fresca. Meus olhos se concentraram naquele azul cristalino.
_Hei, tá pensando o que eu acho que tá pensando?_ Marcos cutucou um pedaço de lingüiça do prato que Roberta tinha deixado em nossa mesa.
_Por que teima em achar que sabe o que penso, o que sinto...?
_Desculpe, não está mais aqui quem falou._ deu um gole na cerveja e ficou olhando para o lado.
_Foi mal._ percebi que havia sido grossa, uma injustiça diante de tudo que fizera por mim.
_ Marquinhos..._Tá tudo bem, Lu._ Vou pegar outra cerveja gelada._ Levantou e saiu, se aborrecera.
Ali, sozinha na mesa, de repente, senti um desespero, pânico mesmo. Queria meu primo de volta, como criança perdida no Supermercado. Não sei o que deu em mim, mas era horrível estar numa mesa, enquanto todos se aglomeravam em rodinhas de gritos e risos.
Levantei imediatamente e fui atrás dele.
_Oi... Sozinha?_ ouvi uma voz atrás de mim.Virei-me e me deparei com uma escultura, quero dizer, um Deus grego de Homem. Olhos verdes, moreno, malhado, aqueles que a gente fala ser o nosso modelo ideal.
_Não, é. Ãnh, não com namorado... Err_ gaguejei diante do monumento que parecia dono total da situação com seu sorriso aberto e aquela sunguinha vermelha deliciosa.
_ Carlos._ apresentou-se, provavelmente sabendo que não precisava muito mais para dizer.
_Luíse. _ estiquei a mão e senti a dele molhada.
_ Não vai tomar banho não?
_Não..._ fiz pouco caso.
_ Ah é?_ ele riu e me pegou pelos braços continuando a sorrir ameaçador._ E se eu te jogar, ãnh?
_Não, por favor..._ pedi, desejando que me jogasse, mas que também não fizesse.
_ Ah, depois a roupa seca._ chegou para muito perto da beira da piscina, o que fez meu sinal vermelho se acender.
Procurei desesperadamente o Marcos com os olhos e parece que ele por telepatia me viu e correu em meu socorro.
_ Larga ela cara. _ Puxou-me para perto dele.
_ Calma aê, só queria brincar com a mina._ justificou-se o rapaz, diante dos olhares de alguns que se atraíram quando Marcos falou alto. _ Ela é alguma coisa sua?
_Minha prima.
_ Então, deixa ela se divertir.
O rapaz me puxou de novo e agora, já sem estar hipnotizada pela beleza, percebi que ele estava bêbado.
_Ela está se divertindo bastante comigo._ Marcos me puxou de volta e eu já me sentia como uma bolinha de pingue-pongue sendo disputada.
_ Ah, pára de bancar o pai dela, se toca. _ O cara deu um empurrão e Marcos se desequilibrou._ Viu como é mais divertido aí?_ Carlos riu do meu primo todo molhado na piscina. _ Vem você comigo?_ olhou-me. Dei dois passos para trás.
_ Não empurra ela!_ Marcos berrou e as pessoas do churrasco ficaram em silêncio.Roberta correu e falou alguma coisa no ouvido de Carlos que o fez me soltar.
Marcos saiu da piscina:
_ Vamos embora? Para mim acabou._ Marcos saiu em direção ao portão.
Encontrei-o na frente do carro.
_Lu, não queria que tivesse passado por isso.
_Tudo bem, Marcos, tem coisa que eu vou ter que enfrentar sozinha.
Em casa, ficou aquele silêncio desconfortável quando meu primo saiu do banheiro já de roupa seca.
Sentou no sofá ao meu lado.
_Minha vontade era de esganar aquele cara.
_Só porque ele queria me jogar na água, ou havia outra coisa mais?
_Que outra coisa seria?_ Marcos olhou-me nos olhos.
_Você pareceu com...
_Com o quê?_ sua voz soou brava.
_Nada. _Levantei. _ Vou tirar essa roupa, estou suada.
Fui para meu quarto, já eram 7 da noite e eu sentia fome.
Encontrei novamente Marcos na cozinha, sentado à mesa, encarando a fruteira.
Abri a geladeira para procurar algo.
_Sim, eu estava...
_ Estava com o quê?_ fechei a porta da geladeira com uma maçã na mão.
_ Eu estava com ciúme.Permaneci muda, fingi não entender.
Marcos gostava de mim mais que uma relação familiar?
_Não gosto desses caras com a mão em você.
_Não precisa se preocupar..._ fui vaga._ Me pergunto se um dia vou me sentir sexualmente atraente.
_Você é muito atraente._ suspirou e levantou.
Não sei o que deu em mim, mas tive uma súbita vontade de seguí-lo. A mesma sensação do churrasco, de quando estava só na mesa. Precisa estar ao lado dele. Uma necessidade física do contato. Encontrei a porta do seu quarto trancada, não tive coragem de bater. Por quê? Se isso era tão comum para mim.Fui para meu quarto e procurei colocar meu pijama. Vi a novela das oito, mas minha cabeça não parava de pensar no Marcos. Não agüentei e levantei.
Bati na porta.
_ Entra.
Abri e o vi sentado diante da escrivaninha.
Olhou-me ainda com a mão apoiando o rosto.
_ É..._ percebi que naquele instante não tinha desculpa nenhuma para estar ali.
Ele ficou me olhando longamente e depois de uns trinta segundos deduziu que eu não tinha nada a dizer. Levantou-se e veio na minha direção, o que me trouxe um arrepio.
Fechou a porta atrás de mim e me encostou nela.
Senti minha respiração acelerar. Sua mão passeou pelo meu cabelo curto, espetado e foi tão deliciosa essa sensação. Minhas mãos foram sozinhas buscá-lo para perto e o senti quente, rígido, forte.
_ Lu, é melhor você voltar para o seu quarto..._ Fechou os olhos e percebi que manter-se imparcial estava impossível.
_ Você quer que eu vá?
_Você só pode estar brincando comigo..._ riu nervoso e foi para beira da cama, sentou, passou a mão na cabeça.
_Fala como se eu fosse uma tentação! _ fiquei em sua frente e deixei uma das minhas pernas entre as dele. Puxei seu rosto e dei-lhe um beijo na boca com língua, saliva, senti-lhe o sal da pele quente quente e veio tudo como vulcão.
Sobre meu corpo, analisou meu rosto por uns segundos e depois mergulhou para dentro de mim em fome, carne, desejo e força. Seu amor tinha uma energia vibrante, pulsante, como que derramando tudo sobre mim e me provancando estados de profunda inconsciência.
Só fui voltar daquela região abissal na manhã seguinte.
Luise.

5.2.06

.: Cap12: Meu mundo é bem maior (Luíse): .

Se eu precisava de um motivo para não ter que ir a escola e enfrentar aquela chatura de revisão, ali estava. Claro que eu preferia não estar vegetando aqui na cama, mas pelo menos não olharia mais para a cara daqueles professores e... Não! Não!Droga, porque estou mentindo para mim mesma? Eu, na verdade, estou fugindo. Tudo que estou fazendo é me refugiar nessa dor para não enfrentar um novo fracasso no vestibular.
Dei soquinhos no travesseiro e por final cansei. Respirei profundamente, deixando entrar um pouco de ar frio nos meus pulmões. O inverno já chegara e lá vão os meses se passando e eu me sentindo uma mendiga na beira da calçada olhando as pessoas passarem e eu implorando para que me ajudem.
Sentei na cama e puxei a cadeira de rodas. Com muito esforço e depois de tentar todas as combinações de formas de sentar nela sem cair, consegui ficar sobre duas rodas. Não foi com poucos tombos que ganhei essa independência. Aliás, independência é o que será duplamente difícil de se atingir agora. Se antes eu era uma garota que estava tentando se emancipar, agora eu tenha que me erguer para aí poder voltar ao estágio em que me encontrava, antes daquele carro atropelar meus sonhos e esmagá-los feito ferragem retorcida.
Conduzi a cadeira até o espelho do guarda roupa e observei meu rosto. Estava tão branco. Abri uma gaveta e tirei uma caixa. Pinça, batom, brinco... Eu precisava dar um pouco de mulher àquela face inumana. Procurei um lenço colorido que eu ganhara de umas amigas que vieram me visitar durante aquele período de “pena pós-choque”, em que todos se sentem na obrigação de vir te ver, mas depois já se dão por satisfeito com a tarefa cumprida. Era rosa e com brilhos nas pontas, um tanto paty, mas daria conta de me tirar a palidez. Amarrei na cabeça de ralo cabelo.
Faltava agora abandonar aquele look camisolão da vovó. Escolhi um casaco de gola alta que pus por cima de uma camiseta. Agora quem sabe uma calça? Parei com o jeans nas mãos e percebi que não poderia vesti-lo sem que faltasse metade das pernas para preenchê-los. Quando, ou melhor, será que eu poderei voltar a usar meus jeans um dia? Pendurei de volta no cabide e terminei por me enfiar numa saia florida.
Olhei para a cama desforrada e pensei em quantas semanas ali me sepultei. Puxando uma ponta aqui, outra ali do lençol, com muito custo, arrumei minha cama.
_ Lu?_ Marcos entrou esbaforido no quarto.
_Oi._ virei a cadeira e fiquei de frente para ele._ Por que está tão afoito? Que houve?
_É que..._ meu primo pareceu perder as palavras que estavam prestes a disparar como metralhadora, quando abriu a porta do quarto._ Você está tão..._ sorriu e arregalou os olhos._ Bonita.
_Ok, Marcos, eu seco a louça hoje, não precisa puxar o saco...
_Falo sério!_ chegou mais perto e sentou na cama ao meu lado._ Você sempre foi linda e aos poucos isso também vai voltando ao normal._ fez um carinho no meu rosto.
_Era isso que veio falar comigo? Que eu estou supersexy quase careca?
_Não._ riu e balançou a cabeça para o lado._ Vim te dar uma notícia que vai mudar a sua vida!_ disse no mesmo tom de profecia com que tinha me revelado três semanas atrás que conseguira uma cadeira de rodas da avó de um amigo que falecera. Não fora tão enfático, nem tinha esse brilhinho nos olhos como da outra vez, mas eu já tinha certeza que era outra de suas idéias para tornar o meu dia-dia menos difícil.
_Você quer andar outra vez, não?
_Não, estou ótima aqui engordando feito uma porca de tanto comer biscoito e ver Sessão da Tarde. Claro que quero! Do que está falando?
_ Eu fui falar com o pai do Fábio.
_Com o pai do Fábio?_ franzi a testa. O que o pai do Fábio tinha a ver com eu voltar a andar? Ele, pelo que eu me lembre, estava com muita raiva de mim por achar que eu era culpada pela morte do filho, mesmo não tendo nada a ver com isso, afinal, ele precisava encontrar um culpado para suportar o vazio da perda.
_Sim, ele mesmo. Eu o encontrei um dia desses na padaria e o reconheci. Ele nem quis me dar ouvidos, pegou o pão e saiu andando. Mas eu fui lá e insisti em saber como estavam. Tudo bem, eu sei que na época do acidente ele ficou com muita raiva da gente, achando que você tinha levado o filho dele a morte e coisa e tal... Então, aí ele por fim aceitou conversar. E nós fomos falando de como levamos a vida desde aquilo tudo e eu lhe disse que você, ao contrário do Fábio, estava viva e precisava de esperanças para continuar, para seguir com seus sonhos. E disse para ele que lamentava pela dor dele, mas que se não tivesse sido aquela noite, você ainda estaria andando e feliz. Ele me perguntou porque você não colocava próteses e eu respondi que pelo óbvio: não colocava porque não tínhamos condições como ele.
_Você falou tudo isso para ele?_ falei surpreendida, porque orgulhoso do jeito que Marcos era, para ter dito tudo isso, depois daquele homem ter falado poucas e boas de mim, após saber da morte do filho, no alto de sua fúria, era porque realmente meu primo estava querendo algo importante e dessa vez não era para ele, mas para mim.
_Hum-hum. E sabe o que ele me propôs? Que nós passássemos no escritório dele amanhã, porque ele vai nos levar a um lugar e você ganhará próteses! Não é o máximo?
_ ... _ engoli em seco, era para eu pular de alegria com ele, beijar seus pés por ter conseguido isso, mas é que eu queria um milagre, que me dissesse que amanhã eu acordaria com minhas próprias pernas de volta.
_ Eu sei que não vai ser como antes..._ meu primo pareceu ler meus pensamentos._ mas será bem melhor do que tínhamos até aqui._ pegou na minha mão._ poderá andar por aí e depois praticar esportes e tudo mais. Sabia que tem até surfista com prótese?_ Marcos fez uma voz ainda mais animada e isso me trouxe um sorriso para o rosto. Era incrível como conseguia pensar tão além, tão acima de qualquer barreira.
_Eu não gosto de surfe, pode ser andar de bicicleta?
_Claro! E também andar pela rua, sair pro shopping, ir ao baile de formatura da escola e...
_ Eu não queria voltar para lá, Marcos._ confessei.
_Por quê? Porque você ficou parada vários meses? Mas tudo que aqueles vestibulando de primeira viagem aprenderam, você já tirou de letra. É só voltar, pegar os livros, se concentrar nos detalhes e aproveitar a oportunidade de tirar dúvida com os professores. Não esqueça que a vida te deu a chance de ganhar essa bolsa lá, não vai perdê-la!
_Tem razão. Não posso perder, como você sempre diz, as chances que a vida dá.
_ É isso aí! E não se esqueça que a partir de agora nossa velha aposta está de pé!
_ Mas essa já está perdida, quem é que vai querer uma garota assim?
_Um cara muito legal que se importa com você e sua força!
_É, e quem?
_Você vai ter que achá-lo, não quer que o papai aqui ensine tudo, né?Bom, agora tenho que correr se não quiser perder meu emprego na sapataria. Eles foram muito compreensíveis comigo. Fui!_ correu.
Olhei para o quarto e pela primeira vez, em alguns meses, eu vi meu mundo maior do que os limites daquelas paredes.
Luíse.

12.10.05

.: Cap11: Melhor parte (Marcos):.

Olhando para o teto branco da sala do meu apartamento, eu sentia que meu corpo estava sem força para mover nenhum músculo, como se tivesse sido eu o atropelado. Agora sozinho, sentado com a cabeça no encosto do sofá, eu desejava ardentemente ser só um menino de cinco anos.
Queria poder chamar a minha mãe e dizer para ela: “Mãe, olha, a prima Luíse se machucou”. Ela ia me dar um beijo na cabeça e me mandar brincar longe, para que nada me atingisse, me abalasse, me traumatizasse. E me garantiria, com a aquela firme certeza da voz das mães, que tudo ficaria bem outra vez. Mas não havia mais a minha mãe e meus cinco anos já iam longe, lá num passado perdido dentro de mim.
A voz da mãe de Luíse ainda ressoava na minha cabeça. Parecia aquelas bolinhas de silicone que as crianças jogam no chão e ficam pulando dezenas de vezes. As frases de desespero iam e vinham dentro do meu cérebro e uma hora paravam, fazendo o mesmo silêncio que fez a voz de dona Lindalva quando chorou um choro engolido dentro do meu ouvido. Se culpou por não ter dinheiro para vir ver a filha, culpou a vida por ter sido tão crua e ter obrigada sua Luíse a vir estudar na cidade grande, culpou o rapaz que estava bêbado no carro...
Eu queria bater o telefone e não ouvir mais, porque isso estava acabando comigo, mas nem para isso tinha força, ficou apenas a mão segurando o fone.
Podia ser sonho e eu acordar para comprar pão e, quando chegasse, encontraria Luíse com cabelo molhado e com seu péssimo humor quando acorda de manhã. Só que aquilo era a realidade, dura quanto fosse, a realidade, não um livro, em que alguém senta para escrever e pode mudar ao seu bel prazer o destino dos personagens, como um Deus. Era minha vida e eu precisava saber o que fazer com ela. Uma caminhada longa na rua me cairia muito bem, mas não podia abandonar Luíse, aliás, o que fazer com Luíse? Não sobrou quase nada dela. Existe muito pouco da minha prima naquele quarto ao lado.
_Marcos?_ouvi uma voz muito baixa vinda do corredor.
_Já vou._ levantei e senti o corpo moído, minha cabeça parecia uma caixa com um monte de cacos quebrados que chacoalhavam.
Entrei no quarto e tentei fazer um ar de naturalidade. Mas era tão chocante vê-la assim: branca, magra, sem pernas e sem cabelo, que tiveram que raspar para operar-lhe a cabeça atingida brutalmente no acidente. Ela sabia ler meus pensamentos e isso era lacinante, porque seus olhos se encheram de lágrimas, como se eu fosse seu espelho em que se via.
_Me chamou?_ sentei ao seu lado e peguei sua mão.
_Eu preciso ir ao banheiro._ falou com uma voz quase nula.
_Vem, eu te levo._ Estendi o braço e a peguei no colo, era tão leve, tão frágil, com sua cabeça apoiada no meu peito. Parei em pé no banheiro e de repente me vi num impasse. _ Como faço agora?
_Me mata?Eu não agüento isso._ ela agarrou minha camisa e soluçou.
_Desculpe, mas eu preciso de você. _ falei olhando para o seu rosto._ Eu sei que é egoísmo só pensar em mim, mas eu estou fazendo isso por mim, se eu mato você, sobra muito pouco de bom na minha vida. Porque a melhor parte dela é você, Luíse.
_Então, acho que vai ter que tirar minha calcinha._ ela sorriu e depois deu um riso pequeno e o som daquele riso era a energia de que eu precisava.
_Isso é uma proposta indecente?_ ri também e tentei fazer com que aquilo fosse o mais natural possível, mesmo sabendo que representava a quebra do pudor entre nós._ Vou colocá-la no chão e buscar uma cadeira, tá?_ Fui até a cozinha e peguei a cadeira. Coloquei Luíse sentada ao lado do vaso._ Você consegue fazer isso sozinha?É só apoiar-se com as mãos no vaso e sustentar o peso do seu corpo.
_Consigo._ ela respondeu e eu fiquei de costas._Pronto, acabei.Vai me limpar?_ riu, fazendo graça daquela velha frase infantil e, quando me virei para olhá-la, havia o sorriso no seu rosto. Deus, como podia ser tão lindo o seu sorriso?
Peguei-a nos braços e a levei de volta para o quarto.
_ Não quero que você falte às aulas, Marcos._ Luíse preocupou-se comigo, como se fosse eu que precisasse de cuidado.
_Não importa. Eu pego as matérias com os amigos e vai ficar tudo bem. Temos que ajudar um ao outro, porque não temos ninguém, Lu. Nossos amigos podem vir aqui de vez em quando dar uma força, mas só temos um ao outro de fato...
_ E isso é o suficiente._ pegou na minha mão e encostou sua palma na minha, entrelaçando os dedos._ Acho que vamos ter que adiar a aposta. Afinal, estou meio sem cabelo para apostar._ riu e eu também dei uma risada alta e aquilo era catártico para nós dois._ Marcos, e o Fábio, como ficou?
Meu sorriso morreu e meu rosto se tornou novamente sério.
_ Ele não resistiu, Lu. Lamento.
Luíse abaixou os olhos e ficou novamente o silêncio entre nós. O sol já caia e fazia a parede ganhar tons alaranjados e rosa. Um vento muito bom de início de primavera me lembrava a nossa pequena cidade do interior de onde viemos.
Deitei ao lado de Luíse e ela passou a mão no meu cabelo e no meu rosto:_ Você também é a melhor parte da minha vida._ Ela sorriu de novo e dormimos os dois, exaustos. Sua mão ainda estava entrelaçada à minha.
Marcos

10.10.05

.: Capítulo 10: Segura minha mão (Luíse) :.

Havia só umas nuvens e uma voz ao fundo. Segura minha mão. Palavras ao longe formando a mesma frase. Segura minha mão. Com um esforço grande abri os olhos e vi uma mancha, um borrão e logo reconheci o rosto do meu primo Marcos.
_Estou aqui com você, Lu._ pude sentir agora o calor da sua mão na minha.
_Onde estou?_ sentia todo meu corpo pesado, fechei novamente os olhos.
_O carro em que você estava bateu, mas vai ficar tudo bem..._ ele falou docemente no meu ouvido_ Pode dormir mais, que fico aqui te vigiando, linda._ acariciou meu rosto e já não ouvi mais nada, mergulhei de novo para aquele universo esfumaçado que logo caiu no escuro.
Acordei um dia depois, agora mais restaurada. Marcos ainda estava ali do meu lado.
_Acho que estou perdendo as aulas... _ sorri.
_Tudo bem, você é muito esperta e inteligente!_ seus olhos estavam vermelhos e tinha olheiras, não deve ter dormido, supus.
_Quero levantar para ir ao banheiro, me ajuda?_pedi tentando me sentar.
_Não!_Marcos precipitou-se e não me deixou sair da cama.
_Calma, eu preciso fazer xixi!_ irritei-me.
O médico entrou no quarto e olhou para o Marcos com um sorriso cúmplice.
_Quero ir ao banheiro._ comuniquei ao médico, imaginando que isso não seria contra meu processo de recuperação.
O médico puxou uma cadeira de rodas que estava ali perto.
_Não, eu acho que posso andar, basta me dar o braço._ ri, achando desnecessário ser carregada.
Puxei o lençol e senti que o mundo inteiro parou. Não havia vozes, nem ninguém. Um estado de catalepsia que me congelou até a alma.
_Marcos..._gemi e sua mão veio encontrar a minha perdida no ar.
Não havia pernas. Nos joelhos, apenas um curativo. Amputaram minhas pernas por causa do acidente de carro?
_..._ meu primo chegou mais perto da cama e não soube o que dizer.
De repente, eu entendia a apreensão nos olhos dele. Passei a mão na minha cabeça, estava toda enfaixada.
_Onde estão as minhas pernas? Eu estou sentindo minhas pernas... _gemi enlouquecida.
_É normal sentir as pernas no estado inicial de recuperação._O médico informou com toda calma do mundo.
_Não é normal!_ eu dei um berro. _ Deus, eu quero as minhas pernas!_comecei a soluçar._ Eu quero as minhas pernas!_ gritei.
_Calma, linda._Marcos me agarrou com força, tentando conter minha histeria.
_Eu quero as minhas pernas, meu Deus, não faz isso comigo!_senti meu xixi saindo, sem que eu pudesse controlar, e molhou toda a cama._Não!_gritei com toda minha força.
Uma enfermeira entrou e se aproximou com uma seringa.
_Psiu, fica quietinha..._Marcos me abraçou e beijou minha cabeça.
Logo o remédio entrou pelo soro preso na minha mão e meu corpo foi ficando leve.
_Eu te amo, tá? Muito mesmo! Estou aqui..._ a voz de Marcos prendeu na garganta. Ele me inclinou sobre a cama e sua mão estava a segurar a minha nuca quando eu fechei os olhos.
Ainda por alguns segundos ficou a cena na minha mente: Marcos chorava.

Luísa

25.9.05

.: Cap 9: Segundas instruções (Marcos): .

A campanhia tocou uma vez.
_Marcos atende aí pra mim?_ Luísa berrou do banheiro.
Revirei os olhos e respirei pesadamente. Caminhei com passos pesados pelo corredor com meu chinelão, estava me sentindo um velho aposentado. Larguei o livro em cima da mesa e peguei a chave do prego.
_ Oi, eu vim buscar a Luíse. A moça lá embaixo deixou eu subir..._ o dono da voz era tão, como posso dizer, tão... Incompatível com a minha prima que eu nem ouvi o que dizia. Era com isso que ela sairia?_Posso entrar... se não, posso esperar aqui fora...?
_Claro que pode..._ abri passagem para aquele ser que se instalou na poltrona.
Sentei no outro sofá e ficamos naquele momento “climão”, sem assunto nenhum. Eu não consegui parar de observá-lo. Minha prima ia sair com um... um... playbozinho? Ela sempre dizia que eles eram nojentos, que se mastigasse os milos de um ainda ficaria em jejum. Mas veja como os conceitos se invertem? Lá estava aquele cara todo vestidinho de malandrão esperando a minha priminha.
_Veio de carro?_ perguntei.
_Ah!Vim..._ senti que ficara aliviado por eu ter dito qualquer coisa e quebrado o silêncio.
_Vão pra onde?_ comecei a dar um de pai.
_Ah!Para um barzinho com uns amigos...
_Amigos?_repeti num tom de dúvida. Desde quando aquele tipo era amigo de Luísa?_ Mas ela não bebe...
_Não?_ foi a vez dele repetir mostrando que não a conhecia._ É... Não sei muito sobre ela. Nos conhecemos numa discoteca um dia desses... Você é irmão...?
_Primo, sou primo.
_Hum..._olhou a sua volta e deve ter achado nosso apartamento bem humilde._ Tem alguma... Dica?
_Dica?_ Franzi a testa.
_É..._sorriu sem graça._... Para eu me sair bem hoje...
_Ãnh..._ me senti desconfortável. Ele estava me querendo como aliado e eu levei alguns segundos para decidir se considerava a idéia boa. Esse cara não iria fazer bem para minha prima, aposto que vai largá-la depois de iludi-la.
_Ela tem algumas preferências...?_ pareceu realmente interessado.
_Bom... A Lu é bem feminista...__ Eu precisava complicar a vida desse carinha._... Então, pergunte se ela não quer pagar a conta..._ sugeri._... Nada de abrir porta, nem aquelas palhaçadas que as outras mulheres chamam de cavalheirismo... _ aconselhei e até achei que nada do que eu dizia ia ser uma mudança substancial, porque ele estava com cara de troglodita mesmo._ Só não passa da cota se for dirigir! Eu quero ela inteira de volta!
_ Ah!Pode deixar..._ riu.
_Senão, eu te mato.
_..._ ele alongou o riso, mas eu não ri, continuei sério.
_ Eu acabo com você._ reafirmei.
Ele engoliu em seco e Luísa apareceu na sala “dressing to nine”, de parar a respiração de qualquer um. E acho que tem noção de sua condição, pois deu um sorrisinho de satisfação dentro daquela blusa decotada e da calça muito justa. Seu perfume ainda ficou no ar, prolongando a sensação da sua presença, mesmo depois de bater a porta.
Deitei na cama e me afundei no travesseiro para acabar de ler o livro para faculdade. Decidi parar, não passaria todo meu domingo enfurnado naquele quarto. Entrei no banheiro para tomar banho e vi a toalha de Luíse molhada. Peguei-a junto com a minha e levei até a área de serviço para estender no varal e secar.
O telefone tocou. Era um amigo informando que iria fazer uma festinha em casa junto com umas coleguinhas. Não tive muita desculpa para dar, ele estava me intimando a ir. Aceitei. Chegando lá percebi que todos já estavam bem à vontade, se servindo de cerveja, numa conversa solta. Logo, arrumei companhia e tudo começou a esquentar quando o meu celular vibra no bolso. Era o número do celular da Luísa.
_ Que é, Luísa?_ perguntei num tom de impaciência total.
_ Alô? Eu não sou a Luísa..._ era a voz de uma senhora._... Eu nem sei como dizer...
_Dizer o quê?_ Levantei-me do sofá num pulo largando a garota com quem eu estava de lado, os outros também perderam o clima e me olharam.
_Você é o que dessa moça?
_Primo. A Luísa está bem?_ passei a mão na cabeça, quase gritando.
_Ela foi levada pelo Corpo de Bombeiro junto com o outro cara que estava dirigindo...
_ Quê?_ eu senti minhas pernas falharem.Sentei no sofá.
_Eu bati meu carro atrás do deles... O carro se enfiou num poste...
_ Aí não..._ engasguei com a minha própria voz que sumiu.Pedi para meu amigo um papel para anotar o endereço do hospital onde ela estava.
_ O que aconteceu?_ Meu amigo perguntou assim que desliguei o telefone.
_A Luísa sofreu um acidente sério de carro._ ainda olhei para o papel na minha mão, tentando digerir aquilo._ Desculpe atrapalhar a noite de vocês... Mas eu preciso ir...
_ Eu te levo de carro._ Meu amigo acompanhou-me. Pedi para ele acelerar.
_Fica calmo, cara.
_Ficar calmo? Essa garota é tudo para mim! E eu estou com medo do que vou encontrar..._ senti um nó na garganta.

Marcos